Explodiu em 1904 quando o governo anunciou que todo mundo teria de tomar vacina contra a varíola. Qual foi a atitude das autoridades? Em vez de fazer uma campanha de esclarecimento, avisou que a vacinação seria obrigatória. Quem não se deixasse espetar poderia ir pra cadeia. A resposta popular foi à rebelião.
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A exaltação da modernidade, inspirada nas ideias gerais do positivismo, fazia enorme sucesso entre as elites brasileiras. Uma das consequências deste novo modo de pensar foi o prestígio que os médicos e engenheiros (os científicos) ganharam junto aos governantes, papel que até então era quase privilégio dos advogados. Pois foram esses ideais que levaram o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, a iniciar a reforma urbana na capital da República, baseada no que havia sido feito em Paris, a referência de progresso e bom gosto para as classes abastadas brasileiras. O centro velho do Rio foi demolido para a abertura da avenida central (hoje, Avenida Rio Branco), onde ficaria o teatro de ópera, o museu de belas-artes, a biblioteca nacional, as sedes das empresas, as lojas e os cafés elegantes. O problema é que para alargar as avenidas, várias cortiços foram derrubados, sem que o governo se preocupasse com os desabrigados. Que fossem procurar outro lugar para morar, e que não atrapalhassem o progresso!Havia outra coisa pouco moderna, além dos cortiços: as epidemias. No começo do século XX, a cidade maravilhosa sofria com doenças como a febre amarela, a malária e a varíola. Como eliminá-las? Foi convocado o competente médico sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, que recomendou o extermínio de ratos e mosquitos da cidade. Perfeito, mas o problema é que, em nome da “saúde pública e social”, os funcionários do governo não tinham dó em subir o morro da favela (onde moravam os mais pobres) e derrubar os barracos.
Em nome da modernidade, cortiços do centro e barracos do morro derrubados A tensão social cresceu. E explodiu em 1904 quando o governo anunciou que todo mundo teria de tomar vacina contra a varíola. Naquela época nem os intelectuais sabiam direito o que era uma vacina (a explicação científica, devido a Pasteur, era relativamente recente).
Os positivistas ortodoxos (que se guiam, ao pé da letra, Comte e os discípulos), por exemplo, negavam-se a acreditar que a vacina atacasse micróbios. Havia liberais que afirmavam que o Estado não tinha o direito de impor a vacinação.

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O governo não se importou em esclarecer. Os governantes eram os donos da verdade científica e isso bastava. Agora, ponha-se no lugar do pai que vê seu filho ter o braço perfurado por uma agulha de um homem do governo. Um governo que nunca se mostrou muito preocupado com os pobres. Você deixaria? Em seguida, espalhou-se que o local da aplicação seria a virilha. Boato falso, mas que teve efeito porque as pessoas acreditaram nele. E não aceitavam que os homens do governo apalpassem um local tão íntimo do corpo!Resultado: no dia marcado, quase ninguém se apresentou para ser vacinado. A atitude das autoridades foi avisar que a vacinação seria obrigatória. Quem não se deixasse espetar poderia ir pra cadeia. A resposta popular foi à rebelião. Trilhos de bondes foram arrancados e as ruas do Rio de Janeiro ocupadas pelo povo, protegido por barricadas. Alguns líderes populares eram famosos capoeiristas. Os militares florianistas e os positivistas aproveitaram para atacar o presidente Rodrigues Alves. A Escola Militar aderiu aos protestos.
A repressão agiu com eficácia. O Exército matou gente do mesmo jeito como se matam ratos e mosquitos. Numa entre vista para um jornal da época, um dos participantes esclareceu a ampla dimensão política da revolta: “[Era para] não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem! [O mais importante era] mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo”.
Durante muitos anos, o Brasil voltaria a sofrer com epidemias de doenças. É interessante que na Europa também aconteceram revoltas contra a vacinação obrigatória, como lembraram Michel Foucault e o historiador da medicina Roy Porter.
Percebeu? Para a mentalidade positivista, os problemas da cidade deveriam ser revolvidos de maneira “científica”: com engenheiros (abrindo avenidas) e médicos (vacinando). Os que “sabem” resolvem por contra própria, e os pobres se revoltaram porque eram “ignorantes”, concluiriam os sociólogos positivistas.
Como você percebe, faltava a dimensão republicana da política, ou seja, o livre debate de ideias, o direito de todos de falarem e serem ouvidos. Será mesmo que a ciência torna a democracia desnecessária?