– TOTAL LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Não há leis a ser seguidas, todas as normas foram abolidas, a liberdade não poderá ser cerceada. Há o direito à pesquisa estética e à subversão do léxico, através da criação de novas palavras e da alteração nas funções das diferentes classes.
Passatempo
(Drummond)
O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra
Relógio
(Oswald de Andrade)
As coisas são
as coisas vêm
as coisas vão
as coisas vão e vêm
Não em vão
As horas vão
e vêm não em vão
Andorinha
(Bandeira)
Andorinha lá fora está dizendo:
- “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais
triste!
Passei a vida à toa, à toa…
–PARALELAMENTE À LINGUAGEM COLOQUIAL E ESPONTÂNEA, ADMITINDO “ERROS” GRAMATICAIS, SERÃO USADAS INOVAÇÕES TÉCNICAS:
– O verso livre e o verso branco.
– A destruição de nexos sintéticos (preposições, conjunções).
– A enumeração caótica – (acúmulo de palavras vinculado a ideias básicas sem ligação evidente entre si);
– O fluxo da consciência – monólogo interior sem lógica ou coerência; influência de Freud, hermetismo.
– Colagem cinematográfica – fragmentação do texto è sua montagem em blocos, além do uso de várias vozes narrativas;
– Eliminação dos sinais de pontuação.
Observe os textos seguintes:
Poema enjoadinho (fragmento)
(Vinícius de Moraes)
“Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo? Se não os temos
Que de consulta
Quando silêncio
Como os queremos! (…)
E então começa a aporrinhação
cocô está branco cocô está preto
Bebeu amoníaco Comeu botão
Filhos? Filhos melhor não tê-los (…)
Pronominais
(Oswald de Andrade)
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada Me dá um cigarro.
Não há vagas
(Ferreira Gullar)
O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone a sonegação
do leite da carne
do açúcar do pão
O funcionário público não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário que esmerila sem dia de aço
e carvão nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema o homem sem estômago
A mulher de nuvens a fruta sem preço
O poema, senhores, não fede nem cheira
– INCORPORAÇÃO DO COTIDIANO – TRAZENDO UMA ENORME ABERTURA TEMÁTICA, APROXIMANDO POESIA E PROSA, USANDO O GROSSEIRO, O VULGAR, O COMUM OU INDO RESGATAR O FOLCLÓRICO E O POPULAR EM OPOSIÇÃO SINGULAR E AO ESQUEMATISMO DA VIDA BURGUESA. POR OUTRO LADO SURGE A INTEGRAÇÃO POÉTICA DA TECNOLOGIA.
Cantiga de Lavadeira
(Mauro Mota)
Libertos da trouxa tremem
as calças e os paletós.
Doem na pedra pano e carne
Sem anotações no sol.
Canto azul da lavadeira
lavado na ventania.
Mistura de corpos gastos de sabão,
espuma e anil.
O suor da blusa operária
(chora o lenço de Maria)
Transita o amor pela anágua,
geme o lenço da agonia.
O sonho dorme na fronha,
a camisa precordial,
nódoas da fome da criança
na toalha da mesa oval.
Nas águas têxteis do rio
há sabor de sangue e sal.
Dezembro
(Drummond)
Oiti: a cigarra zine: convite à praia.
Tine o sol no quadril,
e o mini véu, dissolve, do biquini.
Cota zero
(Drummond)
Stop!
A vida parou
ou foi o automóvel?
O Exemplo da Rosa
(Manuel Bandeira)
Uma mulher queixava-se do silêncio do
amante:
- Já não gostas de mim, pois não encontras
palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe
morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que
fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?
– A IRREVERÊNCIA DOS AUTORES OS LEVA A UMA POSTURA, CRIAR O POEMA MINUTO, O POEMA-PIADA E ATRAVÉS DA PARÓDIA RELER OBRAS DO PASSADO.
Os Selvagens
(Oswald de Andrade)
Mostraram-lhes uma galinha
quase haviam medo dela
e não queriam pôr a mão
e depois a tomaram como espantados
Canto de Regresso à pátria
(Oswald de Andrade)
Minha terra tem palmares
onde gorgeia o mar
Os passarinhos daqui
não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores Minha
terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a rua 15
E o progresso de São Paulo,
Filosofia
(Ascenso Ferreira)
Hora de comer-comer!
Hora de dormir-dormir!
Hora de vadiar-vadiar!
Hora de trabalhar?
– Pernas pró ar que ninguém é de ferro!
Hipótese
(Drummond)
E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo
– A OBRA MODERNISTA É ABERTA – PERMITINDO VÁRIOS NÍVEIS DE INTERPRETAÇÃO, DEVIDO À AMBIGÜIDADE CRIADA PELO ARTISTA.
Mortos que andam
(Drummond)
Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam, Não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
Nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescindíveis. E não falam.
Estrela da Manhã (fragmento)
(Bandeira)
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
Cantiga para não morrer
(Ferreira Gullar)
Quando você for embora, moça branca como a neve, me leve.
Se acaso você não possa me carregar pela mão,
menina branca de neve, me leve no coração.
Se o coração não possa Por acaso me levar,
moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar.
E se aí também não passa por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento, menina branca de neve,
me leve no esquecimento
– BRASILEIRISMO – Com a incorporação do folclórico e a valorização do que é brasileiro: gente, coisas da terra, jeito de falar, há uma aproximação entre a linguagem oral e a linguagem literária.
Erro de Português
(Oswald de Andrade)
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
Pátria Minha (fragmentos)
(Vinícius de Morais)
A minha pátria é como se não fosse, é
íntima doçura e vontade de chorar; uma
criança dormindo é minha pátria. Por isso,
no exílio assistindo dormir meu filho choro
de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria,
direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, porque e quando a minha pátria
mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a
água
em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos da minha pátria
de niná-la, de passar-lhe a mão pêlos
cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido
(auriverde!) tão feias
de minha pátria, de minha pátria sem
sapatos
e sem meias, pátria minha
tão pobrinha! (…)
Meu Carnaval (fragmento)
(Ascenso Ferreira)
Meu carnaval, tão longe, tão distante
Mas tão perto de mim, pela recordação…
Papel picadinho
três quilos de massa,
seis livros-de-cheiro,
três em cada mão…
Profundamente (fragmento)
(Manuel Bandeira)
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria o rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente (…)