Tomás Antônio Gonzaga – Biografia, Vida e Obra, Arcadismo

Nasceu em Portugal (Porto, G 11/08/1744) e morou em Salvador, Bahia, entre os 7 e os 17 anos de idade. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e permaneceu na Metrópole, exercendo a advocacia, até 1782, quando foi nomeado ouvidor (juiz) de Vila Rica e retornou ao Brasil.

Instalado na capital mineira, tornou-se amigo do poeta Cláudio Manuel da Costa, sob cuja influência iniciou sua produção poética. Nessa época a Capitania de Minas Gerais era governada por Luís da Cunha Meneses. Os desmandos e a arrogância desse tiranete motivaram a principal obra satírica do século XVIII, as Cartas Chilenas, atribuídas a Gonzaga, inimigo político do governador. Ao vir para o Brasil, Gonzaga tinha 38 anos de idade. Logo se apaixonou por uma vizinha, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, adolescente de apenas 17 anos.

As diferenças de idade e de situação econômica devem ter provocado a oposição da família, pois o namoro arrastou-se por vários anos, sem chegar ao matrimônio. Em 1789, quando já obtivera o consentimento dos pais da noiva e preparava sua mudança para a Bahia, Gonzaga foi detido, acusado de envolvimento na Inconfidência. Permaneceu preso no Rio de Janeiro até 1792, quando foi degredado para Moçambique. Pesquisas feitas no século XX revelaram que, no desterro, Gonzaga refez sua vida, casando-se com Juliana Mascarenhas de Sousa, filha de um rico comerciante de escravos. Morreu em 1809.Essas revelações desfizeram o mito do poeta apaixonado, enlouquecido e morto prematuramente pela saudade de sua Marília.

A obra ideologicamente divide-se em duas partes: na primeira o autor fala do namoro, da natureza e dos sonhos de felicidade; na segunda ele usa um tom melancólico para fazer uma reflexão sobre a justiça, sobre sua situação no exílio, sobre seu amor por Marília.

O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: morre a guerra
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
como o maior Augusto,Eu é que sou herói, Marília bela,
Seguindo da virtude a honrosa estrada:
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! não manchei a espada,
Não o roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro;
Uns tão ditosos laços.

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
vestia finos lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que dar, é que eu queria
De mar rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabelos
Ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferte já não vejo
Além de um puro amor, de um são desejo.

(…)

Nas noites de serão nos sentaremos
C’os filhos, se os tivermos, à fogueira;
Entre as falsas historias, que contares,
lhes contarás a minha verdadeira.
: Pasmados te ouvirão; eu entretanto
Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pelas ruas,
Nos mostrarão com o dedo os mais Pastores;
Dizendo uns para os outros: “Olha os nossos
‘Exemplo da desgraça, e são amores’.
Contente viveremos desta sorte,
Até que chegue a um dos dois a morte”.

“Cartas Chilenas” – Faz uma critica ao processo colonial através da figura do governador Luís da Cunha Meneses. Retrata a vida política e os desmandos do governo. Apresenta nativismo. São poemas satíricos que circularam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. Esses poemas eram escritos em versos decassílabos e tinham a estrutura de uma carta, assinados por Critilo e endereçados a Doroteu, residente em Madri. Nessas cartas, Critilo, habitante de Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica), narra os desmandos e arbitrariedades do governador chileno, um político sem moral, despótico e narcisista, o Fanfarrão Minésio (na realidade, Luís da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). Estes poemas foram escritos numa linguagem bastante satírica e agressiva, e sua verdadeira autoria foi discutida por muito tempo. Após os estudos de Afonso Arinos e, principalmente, o trabalho de Rodrigues Lapa, a dúvida acabou: Critilo é mesmo Tomás Antônio Gonzaga e Doroteu é Cláudio Manuel da Costa.)

Observe este fragmento da 2ª carta:

“Apenas, Doroteu, o nosso chefe as rédeas manejou do seu governo, fingir nos intentou que tinha uma alma Amante da virtude.

Assim foi Nero. Governou aos Romanos pelas regras da formosa justiça, porém logo trocou o cetro de ouro em mão de ferro. Manda, pois, aos ministros lhe dêem listas de quantos presos as cadeias guardam: faz a muitos soltar e aos mais alenta de vivas, bem fundadas esperanças. Estranho ao subalterno, que se arroga o poder castigar ao delinqüente com troncos e galés; enfim, ordena que aos presos, que em três dias não tiveram assentos declarados, se abram logo em nome dele, chefe, os seus assentos.

Aquele, Doroteu, que não é santo,
Mas quer fingir-se santo aos outros homens,
pratica muito mais do que pratica
quem segue os são caminhos da verdade.
Mal se põe nas igrejas, de joelhos,
abre os braços em cruz, fecha os olhos,
faz que chora, suspira, fere o peito
e executa outras muitas macaquices,
estando em parte onde o mundo as veja.
Assim o nosso chefe, que procura
Mostrar-se compassivo, não descansa
com estas poucas obras: passa a dar-nos
da sua compaixão provas.”

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